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Entrevista com Antonio Carlos Viana



       O escrito Antônio Carlos Viana, autor de livros, entre os quais se destaca O Meio do Mundo e Outros Contos, lançado em 1999, teve um de seus contos adaptado para o cinema pelo cineasta Marcus Vilar. Nessa entrevista ele fala de seu trabalho e da expectativa para o curta-metragem O Meio do Mundo.


EL - Comente um pouco sobre seu conto O Meio do Mundo

A.C.V - Um de meus temas preferidos é o da perda da inocência. Talvez “O Meio do Mundo” seja o mais emblemático, porque o menino é levado para um determinado lugar sem que saiba muito bem o que vai lhe acontecer. O título remete a um lugar perdido no ermo do mundo, e também à linha divisória entre dois momentos da vida: o da inocência e o desconhecido. Gosto de trabalhar com a infância e a adolescência, porque são momentos cruciais em qualquer existência. Tudo o que coloquei no conto foi muito pensado: o ambiente árido do sertão, a mulher carvoeira, suja e sem voz, a pobreza da casa, tudo para se contrapor à riqueza da experiência que será vivida por Tonho.

EL - Qual foi sua reação ao saber que seu conto seria transformado em um filme de curta-metragem?

A.C.V - Eu não conhecia Marcus Vilar. Quando ele me ligou falando que pretendia filmar o conto, me deixou exultante porque vi que o livro começava a circular, o que é o desejo de qualquer autor. Fiquei à espera de algum filme dele. Foi no Festival de Curtas de Sergipe que o conheci e vi seu magnífico “A Canga”. Não tive dúvidas de que o conto estava em boas mãos e nunca duvidei do seu resultado.

EL - O Marcus me contou que o senhor fez um conto baseado numa experiência dele...

A.C.V - Dificilmente escrevo sobre coisas que me contam ou me acontecem. Às vezes um fato qualquer pode desencadear um conto, mas não a história em si. Quanto à história do Marcus, achei-a tão impressionante que, ao chegar em casa, sentei diante do computador e a escrevi de um jato só. Depois foi só reinventar. burilar, trabalhar a linguagem para não ficar chula. Claro que nem tudo o que está lá aconteceu com o Marcus, sobretudo o desfecho. Ele deu o mote e eu criei em torno uma situação nada confortável para o adolescente que lá está. O conto terminou sendo um dos que mais fazem sucesso entre os leitores. Não vou dizer qual é porque não pedi permissão a ele. Está no meu último livro, “Aberto está o inferno”. Agora todo mundo vai querer saber. Isso é com ele.

EL - Qual sua expectativa com relação a esse filme?

A.C.V - Sempre alimentei grandes expectativas e acho que não vou me decepcionar. Antevejo algumas cenas a partir do que vi em “A Canga”. Marcus sempre falou comigo sobre o roteiro, alterações que fez, o cuidado para que o filme não ferisse suscetibilidades. Marcus deve ter captado isso com a sensibilidade que tem.

EL - Como é seu processo de criação?

A.C.V - Criar é algo bem complicado. Há dias em que não somos capazes de escrever uma linha. Outros, basta pôr a primeira palavra que o resto vem de roldão. Sou muito disciplinado e quem não for não faz nada na vida. Todo dia me acho na obrigação de escrever alguma coisa, mesmo que não dê em nada. Seria bom que sempre desse em alguma coisa, mas isso é impossível. O importante é estar disponível, não ter medo de perder tempo com algo que pode resultar em fracasso. Às vezes penso que determinada história não vai dar em nada e, de repente, com mais uma volta do parafuso, eis que ela rende o impensável. Escrever tem dessas surpresas. Como sou muito meticuloso, demoro muito a terminar um conto. E, mesmo quando o dou por concluído, sempre acho que poderia ficar melhor. É aquela eterna insatisfação de quem pretende fazer arte.


EL - A literatura sempre foi a grande fornecedora de idéias para o cinema mundial, desde o século passado, haja vista produções como E o Vento Levou, Cidade de Deus, O Pagador de Promessas entre tantos exemplos que poderia citar. Na sua opinião a literatura e o cinema, essas duas formas de arte, se completam e se entendem perfeitamente?

A.C.V - O que nenhum autor pode querer é que o filme seja uma ilustração do romance, do conto ou do poema. Assim não seria cinema. O cinema tem sua linguagem, e muitas vezes o que funciona no papel não funciona na tela. Não gosto quando as pessoas falam assim: “O filme é melhor do que o livro”, ou vice-versa. Cada um deve ser visto dentro da forma que lhe é peculiar: literatura é palavra; cinema é imagem. Cinema, televisão, literatura sempre vão se entender. O que se precisa fazer é dar educação para que o leitor-espectador veja cada um dentro de seus limites. Pior quando dizem “não li o livro mas vi o filme (ou a minissérie)”, como se uma coisa substituísse a outra. Assim não dá.


EL - Fala um pouco do início de sua carreira, de quando o senhor descobriu que era um autor e quando teve a certeza que queria seguir essa carreira.

A.C.V - Escrever todo mundo quer um dia na vida. Eu comecei por acaso, quando comprei minha primeira máquina de escrever. Assim que cheguei em casa com aquela conquista, pus um folha de papel e deixei que viesse da minha cabeça qualquer coisa, sem censura prévia, mas sem pretensão nenhuma de ser escritor. Veio uma história interessante que eu nunca imaginei ser possível eu criar. É o conto “Brincar de manja”, que está em O meio do mundo e outros contos. Gostei da experiência e continuei escrevendo. Quando tinha um bom número de contos, apresentei a algumas pessoas que entendiam do riscado e elas me incentivaram a continuar. Aí veio Brincar de Manja (1974). Depois, Em Pleno Castigo (1981), O Meio do Mundo (1993), O Meio do Mundo e outros Contos, este uma seleção dos melhores contos dos três anteriores, publicado em 1999, pela Companhia das Letras. E agora, Aberto está oIinferno (2004), também pela Companhia. Como vê, trabalho devagar, com muito cuidado. Ter chegado à Companhia das Letras para mim foi o ponto mais importante da minha carreira, que começou praticamente de uma brincadeirinha.

EL - Lembra de algum momento ligado ao seu trabalho que o deixou triste, magoado?

A.C.V - O Meio do Mundo e outros Contos tinha sido indicado como leitura obrigatória para o vestibular da UFS (Universidade Federal de Sergipe) e depois a própria universidade o retirou porque disse que era pornográfico. Uma universidade! Algo inaceitável. Eu não trabalho com pornografia, mas com o erotismo, que refino até onde posso.

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